Cultura

Cultura de salões em Belo Horizonte: conversa, cadeira e memória coletiva

Ilustração sobre cultura de salões em Belo Horizonte

Na Rua da Bahia, o salão da Dona Neuza existe há mais de quarenta anos. As paredes guardam fotos amareladas de clientes que cresceram, se casaram, tiveram filhos e voltaram com esses filhos para o primeiro corte. O cheiro de creme relaxante se mistura ao de café coado na garrafa térmica — um ritual que nenhuma reforma conseguiu eliminar. "Aqui ninguém é só cliente", diz Neuza, 68 anos, cabeleireira. "É família que senta na cadeira."

Belo Horizonte tem uma relação particular com seus salões. Na capital mineira, esses espaços funcionam como extensão da sala de estar: locais de conversa política, fofoca de bairro, conselho amoroso e transformação estética — tudo ao mesmo tempo. Para entender a cultura de beleza em BH, é preciso entender o salão como instituição social.

"Na cadeira do salão, a gente se reinventa por fora enquanto desabafa por dentro. É terapia e estética no mesmo pacote."

— Cliente do Salão Dona Neuza

História e herança

A tradição capilar mineira tem raízes profundas. Gerações de mulheres negras transformaram técnicas de trançado, relaxamento e coloração em saber profissional transmitido de mãe para filha, de vizinha para vizinha. Muitos salões de BH nasceram assim — no quintal, na garagem, no fundo de casa — antes de ganhar fachada na rua.

Adriana Souza, historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisa a economia informal da beleza na cidade. "O salão é um dos poucos espaços onde mulheres de classes diferentes sentam lado a lado. A cadeira nivela, mesmo que por algumas horas."

Essa democracia relativa, porém, não apaga desigualdades. Salões de luxo em bairros como Lourdes coexistem com pequenos estabelecimentos em regiões periféricas que atendem com preços acessíveis e horários estendidos. A estética em BH é, assim, um mapa social da cidade.

O profissional como referência

Em BH, cabeleireiros e cabeleireiras são figuras de autoridade estética. Clientes confiam mais na opinião da profissional que os atende há anos do que em qualquer tutorial da internet. "A Juliana sabe o que fica bem no meu rosto melhor do que eu", brinca Patrícia, 45 anos, publicitária que frequenta o mesmo salão no Santo Agostinho há quinze anos.

Essa relação de confiança sustenta negócios e cria lealdade que apps de agendamento ainda não conseguiram quebrar. Muitos salões mineiros resistem à digitalização total — preferem o caderno de anotações, o telefone fixo e a indicação boca a boca.

"Minha agenda está na cabeça e no caderno. Cada nome ali é uma história, não um slot de horário."

— Neuza, cabeleireira

Tendências e tradição

Belo Horizonte também absorve tendências globais com seu próprio ritmo. O balayage chegou aos salões da cidade alguns anos depois de São Paulo, mas encontrou adaptações que dialogam com a luz forte e o clima seco do interior. Cortes pixie e cores fantasia ganham adeptas entre jovens da Pampulha e do Barro Preto, enquanto salões tradicionais mantêm clientela fiel a cortes clássicos e tinturas discretas.

Eventos como o Encontro de Profissionais de Beleza de Minas Gerais reúnem centenas de participantes para workshops, demonstrações e networking. É nesses espaços que técnicas novas circulam — mas sempre com o filtro da experiência local.

Salão como território

Para mulheres negras em BH, o salão historicamente foi também território de afirmação. Tranças, black power, cortes que desafiavam padrões eurocêntricos — tudo isso encontrou no salão um espaço de experimentação e comunidade. Hoje, salões especializados em cabelos crespos e cacheados multiplicam-se pela cidade, muitos fundados por profissionais que cansaram de não encontrar formação adequada em escolas tradicionais.

Marcos Ferreira abriu seu salão no bairro Padre Eustáquio em 2019. "Quis um lugar onde toda cliente se sentisse vista. Onde não precisasse 'domar' o cabelo para ser aceita." Seu negócio cresceu por indicação — o mesmo motor que sustenta a cultura de salões em BH há décadas.

O futuro da cadeira

Com a chegada de novas gerações, os salões mineiros se reinventam. Alguns investem em ambientes instagramáveis; outros mantêm a simplicidade que sempre funcionou. O que parece não mudar é a função social do espaço: um lugar onde beleza e pertencimento se encontram na conversa entre duas cadeiras.

Na Rua da Bahia, Dona Neuza prepara o café da tarde. A próxima cliente já está a caminho — mãe e filha, como toda semana. Mais um capítulo na longa história de um salão que é, antes de tudo, parte da cidade.